Four Bolivian giants

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Texto de Maximo Kausch / Fotos de Pedro Hauck e Maximo Kausch

(Reportagem publicada originalmente na Aventura & Ação de Setembro de 2009)

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O mau tempo não diminuiu o ritmo dos escaladores Maximo Kausch e Pedro Hauck, que se lançaram às maiores montanhas bolivianas com determinação de sobra para superar os mais de seis mil metros dos picos com direito a muitas escaladas técnicas

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A ideia fixa de escalar várias montanhas da Bolívia nos parecia um tanto quanto vaga, mas insistia em nos acompanhar até que, em 2009, finalmente, eu e o Pedro Hauck (meu companheiro em montanha há 10 anos) tivemos a oportunidade de tirar o projeto do papel. Ainda não conseguíamos planejar números ou tempo de estadia, mas de uma coisa eu tinha certeza: seria preciso um carro, pois já havia estado diversas vezes na Bolívia e não guardava boas memórias dos transportes públicos e das longas estradas de terra. Pedro optou ir com seu carro particular, que é um veículo de passeio, não tão adequado ao que nos aguardava. A pergunta “será que vai aguentar?” não saía da nossa cabeça, mas resolvemos partir para descobrir.

Durante os oito mil quilômetros que percorremos, com certeza, uma das maiores dificuldades foi lidar com as autoridades bolivianas que pediam ajuda financeira por qualquer motivo, ou inventavam um problema para oferecer a solução, solução essa devidamente paga, claro! Isso sem falar na precariedade de algumas estradas com longos percursos em terra (em processo de asfaltamento) e falta de infraestrutura como postos de gasolina e locais para comer algo “limpo”. A higiene não é exatamente o forte do interior boliviano, o que nos provocava “diarréias” uma atrás da outra. Sem falar em outros problemas de saúde que nos fizeram perder cerca de 20 dias antes que começássemos a subir a primeira montanha. Problemas resolvidos, saúde recomposta e aclimatação bem feita, era hora de deixar as pendengas de lado, para, finalmente, começar a nossa série de escaladas frenéticas, encarando a montanha mais alta da Bolívia, Nevado Sajama, na Cordilheira Ocidental, fronteira com o Chile.

Vento, persistência e mais Vento no sajama A primeira vez que vi este imponente vulcão foi em 2002, quando Pedro e eu escalamos o Pomerape, de 6.220 metros. Lembro que, na época, pegávamos água de gelo que derretíamos a 4.900 metros de altitude. Este ano voltamos para o mesmo lugar e não encontramos estas agulhas de gelo antigo, que representam o estágio final de derretimento de uma geleira. Só encontramos gelo neste vulcão a 5.900 metros, já perto do cume. É incontestável que alguma coisa na Terra está mudando e as montanhas com seus frágeis glaciares são das primeiras a serem afetadas. Nas minhas escaladas nos últimos 10 anos, vivenciei muitos fenômenos que não deixam dúvida sobre isso. Muitas rotas famosas já começaram a derreter há algum tempo e hoje estão em um estado muito avançado de retrocesso. A atual geração de montanhistas deve ser a última com chance de escalar estas montanhas à maneira que escalaram os pioneiros. Falando com guias que trabalham na região do Sajama, fiquei sabendo que, há uma década, a parte nevada começava a 5.200 metros. Hoje, pela rota da crista noroeste, só se encontra neve a 5.700 metros. Tivemos de ser muito persistentes nesta montanha, pois pegamos muito vento no acampamento alto e nossa barraca quase saiu voando. Esses eram os chamados “vientos de agosto”, que acontecem no final do referido mês. Ok, mas era julho! O fenômeno atípico também faz parte da grande e complexa rede de mudanças climáticas que nos acomete.

Alternadamente, 14 pessoas subiram ao acampamento alto enquanto estivemos por lá, mas todos desistiram devido às condições do tempo. Após passar três noites neste local esperando o vento passar, atacamos o cume com uma brisa de 30km/h, saindo do acampamento às quatro da manhã.

Ao amanhecer, tivemos a surpresa de ver uma grande tempestade que se formava ameaçadoramente. Após uma rápida análise sobre os riscos, acabamos optando por continuar e, a 6.100 metros, adentramos a nuvem da tempestade. Chegamos ao cume quase congelando as mãos. Do topo não podíamos ver nada que não fosse um ao outro!

Fora da montanha, a tempestade depositou vários centímetros de neve em todo o altiplano. Nevou até na parte mais alta de La Paz, que fica a 250 km do Sajama. O monte Illimani, visível desde a capital e pertencente à Cordilheira Real, ficou totalmente branco desde a sua base. Este, aliás, era o nosso próximo objetivo.

Acertando as contas com o Illimani

Com seus 6.438 metros, o Illimani é um clássico da Bolívia. O nome significa águia dourada em aymará, o idioma indígena local. Tentamos escalar esta montanha em 2002, porém uma tempestade de grandes proporções impossibilitou a subida. Desta vez, vínhamos aclimatados e tão confiantes que fomos ao acampamento-base à noite mesmo. No acampamento alto da montanha, encontramos uma dezena de escaladores. Todos estavam preocupados, pois a neve, da tempestade que pegamos no Sajama, estava muito fofa e ninguém havia chegado ao cume desde então. Teríamos de nos revezar para abrir as pegadas e achar uma rota adequada ao cume. Mas, não foi bem isso o que aconteceu. Fomos os últimos a sair, porém acabamos passando todo mundo e, em menos de uma hora, já estávamos na frente, abrindo a rota. Foi tudo à noite mesmo, à luz de lanterna.

Ao amanhecer, Pedro e eu já estávamos numa rampa que parecia conduzir ao topo. Muitas nuvens apareceram, mas numa pequena brecha pudemos ver o óbvio cume ao sul. Demoramos apenas seis horas desde a saída da barraca para chegarmos ao cume e descemos de volta ao acampamento.

Durante a descida, fomos encontrando os escaladores que supostamente abririam as pegadas conosco. As partes um pouco mais técnicas do Illimani nos deixaram com muita vontade e confiança para escalar rotas mais difíceis. Seguimos nossa viagem para Sorata, em direção ao Lago Titicaca, para encarar uma importante dupla de montanhas, Ancohuma e Illampu, no norte da Cordilheira Real.

Ancohuma, a montanHa escondida Em 2001, ainda éramos novatos no montanhismo de altitude, mas decidimos checar “um tal de Ancohuma”, pois um livro dizia que era uma das montanhas de seis mil metros mais fáceis da Bolívia. Naquela ocasião, nem chegamos a contemplá-la, pois estava encoberta. Oito anos depois, lá estávamos parados a alguns quilômetros do pico, decididos a alcançá-lo, mas ainda sem conseguirmos vê-lo.

A aproximação começa a 2.600 metros de altitude e vai até 5.700! Mesmo durante esta subida penosa, mal conseguíamos enxergar o Ancohuma. Em certa parte da empreitada, avistei uma pontinha nevada emergindo a sudeste e pensei “aquilo é o cume?”. Após alguns metros de caminhada ele sumiu novamente, pois ficava o caiu da montanha e ficou entalado ali. A frustração foi grande. Já tinha até arriscado a marca da barraca! Dali, tivemos muita dificuldade em decidir por onde ir, porém achávamos estar contornando algo parecido a uma montanha e o terreno começou a ficar mais inclinado. Pedro, com muita perícia, conseguiu interpretar algumas curvas de nível na pequena tela do GPS e nos deu uma direção para seguir.Finalmente, chegamos à base de uma parede técnica que, em nossa tese, conduziria a uma crista, que, por sua vez, nos levaria ao cume.

Pegamos trechos com 50 graus em gelo verglass de péssima qualidade. O problema é que subimos tão confiantes que não levamos corda. Só tínhamos um bastão de trekking cada um e uma piqueta de escalada. Seguimos em direção a um bergschrund (greta seguida de uma parede de gelo) localizado logo acima de uma rampa de neve, sem ideia de como atravessá-lo. Mais alguns metros e, não sei como, encontramos um acesso por instáveis pontes de gelo a uma segunda parede. Esta tinha mais inclinação. Após passar a parte suicida do bergschrund foi que consegui sentir a qualidade e inclinação do gelo e adverti Pedro o quão segura era a escalada dali para frente: “Caiu, morreu!”

Sem nem sequer ver onde estávamos, chegamos a uma afiada crista que teve de ser cavalgada. Em uma parte, ela era tão afiada que decidi quebrar as cornijas com a piqueta para facilitar a passagem. O tempo continuava muito ruim e eu sentia dor de barriga só em pensar que já era tão tarde e talvez tivéssemos de descer no escuro. Pedro, com certeza, sentia o mesmo, mas ninguém falou nada.

Uma brecha nas nuvens mais acima acabou revelando que estávamos numa espécie de “cogumelo” que também era o ponto mais alto, o cume. A comemoração não foi no topo, mas sim na base da parede técnica onde estávamos relativamente seguros, se não caíssemos numa greta. Isso aconteceu comigo durante a subida, porém a minha mochila entalou e isso impediu minha queda para dentro da fenda gelada. Definitivamente, não sei de onde o autor do livro que li em 2001 tirou que o Ancohuma era uma das montanhas mais fáceis da Bolívia!

Odisséia no Illampu

O Illampu, que é a montanha de seis mil metros com rota normal mais difícil da Bolívia (isso é um consenso entre muitos montanhistas) foi uma experiência muito fora do comum. Primeiro porque, sim, inacreditavelmente, pegamos tempo bom! Segundo porque a paisagem nos lembrava um país do Himalaia. As estradas para chegar lá, por sua vez, pareciam ser de um país em guerra, de tão abandonadas e precárias.

Pedro passou maus momentos dirigindo na estrada de 42 km que leva à pequena Ancoma, a metrópole local (que deve ter uns 300 habitantes). A estrada tinha manutenção zero e em algumas partes ela formava duas covas no meio, fazendo com que psicológica. Geralmente, quando descemos de uma montanha de seis mil metros estamos tão cansados que não queremos ver montanhas nem em fotos. Isso normalmente dura entre alguns dias a uma semana. Desta vez, subimos e descemos gigantes de seis mil metros, com muitas complicações, desde acessos até técnicas e, mesmo assim, não tivemos aquele sentimento de exaustão e tantas saudades da civilização. Às vezes, descíamos de uma montanha já com vontade de escalar a próxima.

O diferencial da nossa temporada na Bolívia foi definitivamente a aclimatação feita cuidadosamente, que nos permitiu escalar as quatro montanhas mais altas do país com relativa tranquilidade. As aproximações, porém, eram muito distantes umas das outras e o tempo foi predominantemente ruim. Ficamos com saudades das montanhas do Atacama, onde o clima é bem seco e as montanhas são mais próximas umas das outras. Mas cada destino reserva seus próprios desafios e exclusivas surpresas.

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